Há dias em que o coração precisa de chorar

Há dias em que o coração precisa de chorar

Sexta-feira, 6 de Julho de 2018.

Hoje, cerca de cinco anos após a minha chegada ao Brasil, acompanhado da minha esposa e filhos, regressamos definitivamente a Portugal, o nosso país nativo.

Hoje devia ser um dia feliz na minha vida.

Um dia para celebrar com alegria o regresso às nossas origens, à terra que nos viu nascer e crescer.

Um dia para celebrar com emoção a reaproximação física a quem nos é mais querido, cujo contacto e convívio foi apenas esporádico e por vezes tão temporalmente espaçado ao longo dos últimos cinco anos.

Um dia para celebrar com gratidão a oportunidade maravilhosa e inesquecível, quiçá irrepetível, de poder conhecer e viver numa parte distante do nosso mundo, num contexto tão favorável, contrastando com o de tantos milhares de outros emigrantes, que infelizmente experienciam contextos tão desfavoráveis na procura de uma mera esperança de sobrevivência.

Um dia para celebrar o simples facto de aqui estarmos, todos, cinco anos volvidos, juntos, com saúde e com a certeza e satisfação do dever cumprido nessa incomparável experiência de vida que é a de sairmos da nossa “zona de conforto”.

Mas não, hoje não é um dia feliz.

Hoje, a melancolia de um adeus que parece ser definitivo é mais forte, muito mais forte do que o “até já” temporário de há cinco anos.

Hoje, a recordação dos momentos inesquecíveis, mesmo daqueles que parecem corriqueiros, e de tantas aventuras e desventuras vividas, não deixam espaço para outras emoções.

Hoje, a descompressão (necessária) dos muitos desafios pessoais e profissionais e da intensidade com que vivemos os últimos cinco anos sobrepõe-se à felicidade do regresso.

Hoje, a humildade e a compreensão para entender e perdoar aqueles que tornaram os nossos desafios mais desafiantes, as nossas dificuldades mais difíceis, as nossas frustrações mais frustrantes ou o nosso desconforto mais desconfortável, com isso contribuindo para o nosso crescimento, devem ocupar, com um viés positivo claro, uma parte dos nossos pensamentos.

Hoje, por contraste, o sentimento de gratidão a um País e a tanta gente que tão generosamente nos recebeu, ajudou e connosco conviveu ao longo deste período, não deve merecer concorrência de espaço no nosso coração.

Hoje, apenas hoje, o sofrimento que sabemos que causamos aqueles que nos são mais próximos e queridos com a nossa firme decisão de sair de Portugal e viajarmos quase 8.000km para sudoeste não é uma variável relevante na equação da nossa vida.

A vida mais não é do que um grande e variado conjunto de momentos. Uns agradáveis, outros nem tanto. Uns mais fáceis, outros mais complexos. Uns em que caminhamos acompanhados, outros em que o caminho é solitário.

Há momentos na nossa vida em que precisamos de dar um passo atrás para podermos depois dar dois ou três passos à frente. Momentos em que somos postos à prova. Momentos em que precisamos de nos fragilizar, para nos podermos tornar mais fortes.

Nem tudo foram rosas ao longo dos últimos cinco anos (bem pelo contrário!), mas nesta hora de despedida importa realçar as “riquezas” que levo comigo, seja as centenas de pessoas que conheci, as dezenas de lugares que visitei, a fantástica diversidade cultural que desfrutei ou o competitivo e complexo ambiente de negócios que experienciei.

Todas “riquezas” marcantes, mas nenhuma delas a maior de todas.

A maior “riqueza”, essa, foi a de ter reaprendido essa tão longínqua, quase esquecida no fugaz tempo da vida, capacidade de “chorar”.

De redescobrir a nostalgia do verdadeiro significado da palavra “saudade”.

De voltar a sentir e ouvir o meu coração.

Enfim, de reconquistar a importante capacidade de emocionar-me.

Porque a emoção torna-nos mais sensíveis, mais genuínos e também mais humanos.

E o nosso mundo precisa de mais humanidade.

O nosso mundo precisa de mais coração.

Amanhã será um novo dia e com certeza um dia feliz. E depois de amanhã também.

E certamente recuperarei o sorriso que normalmente me acompanha.

Mas não hoje...hoje o meu coração precisa de chorar...

A tristeza de uns e a alegria de outros, bem vindos . E até breve

Bom retorno Tiago! Sentiremos sua falta. Mande notícias!

António Manuel Alves Costa

Chief Financial Officer || CFO | Planeamento e Controlo Financeiro | Melhoria Contínua de Processos

6 a

Mas é pelo Coração que as distâncias se encurtam, caro Amigo! Grande abraço!

Pedro Castaño

Consultor em Sistemas de Gestão e Recursos Humanos. Gestor de formação

6 a

Saudades tuas.

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